Segundo Krishnamurti o tempo interior é uma válvula de escape para o sofrimento, criada pelo pensamento. Um dos seus objetivos é dar segurança ao indivíduo, tranquilizando-o, já que, do ponto de vista psicológico, ele tem o amanhã para se redimir. Amanhã farei isso ou aquilo; tenho esperança de que amanhã serei melhor do que hoje. Tudo isso é tempo, ou seja, qualquer tipo de aspiração, por mais nobre que seja, é uma projeção do pensamento, e, por conseguinte da mente local/ego. O vir a ser faz parte dessa armadilha temporal engendrada pela Matrix, e é um obstáculo à percepção daquilo que está por trás da realidade, não nos deixando viver a plenitude do presente, fazendo parecer impossível a percepção direta da nossa natureza divina, aqui e agora.
Este tempo psicológico aprisiona a mente local/ego numa espécie de círculo vicioso, impedindo-nos a tomada de consciência acerca da nossa própria perfeição. Vivemos como reféns de uma linha de tempo criada pela psique, e passamos a vida inteira assistindo passivamente o passado modificando o presente e adentrando o futuro. Assim, quando dizemos “tenham paciência, pois eu serei uma pessoa melhor”, “Senhor, faça com que amanhã eu seja melhor do que hoje”, “tentarei ser alguém mais equilibrado”, estamos deixando que a ilusão do amanhã psicológico roube de nós a força e o poder transformador do agora. Em termos psicológicos, o amanhã e o ontem, portanto, não existem, constituindo-se apenas numa invenção do pensamento para atingir seus próprios fins, quaisquer que sejam eles. Até mesmo o conceito de evolução do ponto de vista psicológico/espiritual é um artifício criado pelo pensamento, que nos impede de alcançar aqui e agora nossa própria iluminação.
De fato, todas as formas materiais sofrem transformações em sua estrutura, amadurecendo com o passar dos anos. Neste contexto, a mente local/ego, por meio de comparação e analogia, utiliza esse fato para criar uma linha de tempo subjetiva, ao longo da qual, teóricamente, alcançaremos uma evolução psicológica/espiritual. “Eu chegarei ao céu, eu me tornarei um iluminado, alcançarei finalmente, por meio de várias vidas, ou de uma única vida, o nirvana, a moksha, e assim por diante”. Isso faz com que nos apeguemos à idéia do tempo como um catalisador do aperfeiçoamento não somente das formas materiais, mas também dos aspectos psicológico e espiritual. Não percebemos que todas as possibilidades de iluminação se encontram dentro de nós mesmos, agora, aqui, em nossa dimensão quântica (esfera não-local), onde reside nosso eu superior. A idéia de futuro e passado existe apenas em nossa mente local/ego, e é por isso que psicologicamente consideramos o amanhã e o ontem tão importantes. Amanhã vou fazer isso, tenho esperança de mudar, ontem você me magoou e por isso sinto raiva, o tempo é o melhor remédio para que essa raiva possa passar.
Então, a questão toda é essa: será possível um indivíduo enraivecido se livrar da raiva instantaneamente, sem ficar esperando pela intervenção do tempo? Será que precisamos aguardar o acúmulo de mais conhecimento religioso, científico ou filosófico, para vislumbrarmos a verdade? Ou podemos ter a percepção direta da verdade instantaneamente, sem auxílio de gurus, sacerdotes ou mesmo do tempo? Para Krishnamurti, o primeiro passo para nos libertarmos da ilusão do tempo psicológico é utilizarmos a observação das situações do nosso cotidiano, buscando identificar essa artimanha do pensamento, que sempre projeta uma conquista psicológica desejável e recompensadora para o futuro, que na maioria das vezes nunca chega. A compreensão desse fato, por meio da observação intencional e constante, tem o poder de dissolver o próprio fato, possibilitando-nos emergir a cabeça desse caudaloso rio chamado Matrix, no qual estamos mergulhados. Em suas águas, o tempo e o espaço atuam e somos levados a acreditar que existe um início, um meio e um fim para as coisas. Em função disso, o ser humano permanece preso a uma rede de causas e efeitos, condenado a retornar vida após vida, sem perceber que a verdade está dentro dele mesmo. Essas reflexões mudam a forma de enxergarmos a realidade, já que "a verdade não é perceptível através do tempo. A verdade não existe quando o ego está presente. A verdade não surge se o pensamento está se movendo em qualquer direção. A verdade é algo que não pode mensurado.” E se não pode ser medida, não tem início, nem meio, nem fim.
Portanto, a realidade finita que nos rodeia não possui os atributos da verdade. Ela é uma expressão do movimento do pensamento, construída sobre uma linha de tempo, um produto da mente local/ego. Já a verdade é atemporal, eterna. Não é a sua verdade, ou a minha verdade – ela é única e transcende o tempo. Daí não fazer sentido as dissenções entre as diferentes religiões, cada uma defendendo ou tentando impor seu ponto de vista, pois a verdade é uma só. E somente conseguiremos enxergá-la quando o ego estiver ausente. Referência: A humanidade pode mudar? - J. Krishnamurti